«o que me excita a escrever é o desejo de me esclarecer na posse disto que conto, o desejo de perseguir o alarme que me violentou e ver-me através dele e vê-lo de novo em mim, revelá-lo na própria posse, que é recuperá-lo pela evidência da arte. Escrevo para ser, escrevo para segurar nas minhas mãos inábeis o que fulgurou e morreu.»

Vergílio Ferreira, Aparição

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quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Meias-noites

É meia-noite, hora da morte do dia,
O corpo repousa, na cama meia quente,
Falta o sono, dói a colcha, meia fria,
Espero o adormecer (Morfeu vem de repente!).

«Por quem me tomas, Desatino?».
Desvario de eras, aqui, no quarto.
«Não me tomes, não é destino!»,
«Não o queres, diz antes». Parto.

Lá fora, as estrelas brilham,
A lua canta, em sonolência.
Cá dentro, os pés frios tremelicam,
As ideias desvanecem-se, feitas dormência.

Durmo, cabeça sobre o travesseiro,
Um ombro sobre o colchão, outro solto,
Carregando, ainda, o peso do mundo inteiro,
Mas agora durmo, sem sonhos (logo volto).

1 comentário:

Amândio Sereno disse...

Grande entrada! Muito bom!