«o que me excita a escrever é o desejo de me esclarecer na posse disto que conto, o desejo de perseguir o alarme que me violentou e ver-me através dele e vê-lo de novo em mim, revelá-lo na própria posse, que é recuperá-lo pela evidência da arte. Escrevo para ser, escrevo para segurar nas minhas mãos inábeis o que fulgurou e morreu.»

Vergílio Ferreira, Aparição

.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

A celebração do Natal segundo S. Lucas (Lc 2, 10-19)

Mas o anjo disse aos pastores: «Não tenhais medo! Eu anuncio-vos a Boa Notícia, que será uma grande alegria para todo o povo: hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias, o Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um recém-nascido, envolto envolto em faixas e deitado numa manjedoura». De repente, juntou-se ao anjo uma grande multidão de anjos. Cantavam louvores a Deus, dizendo: «Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens por Ele amados».
Quando os anjos se afastaram, voltando para o céu, os pastores combinaram entre si: «Vamos a Belém ver esse acontecimento que o Senhor nos revelou». Foram, então, à pressa, e encontraram Maria e José e o Recém-nascido deitado na manjedoura. Tendo-O visto, contaram o que o anjo lhes anunciara sobre o Menino. E todos os que ouviam os pastores ficavam maravilhados com aquilo que contavam. Maria, porém, conservava todos estes factos e meditações sobre eles no seu coração.
Palavra da Salvação!

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Inquietude

Inquietação no zumbir estremecido
De um sol que se põe para lá do olhar,
Por trás de nuvens escondido (e perdido),
Movendo-se em apeneias que, no breu, se ignoram, ao tocar [o mar.

Queira Deus que a paz da morte incontestada
De mais um dia, um ,
Se espalhe, pela trombeta pelo tempo tocada,
Às guerras de que, na alegria in controlada, ninguém tem dó.

(Luz da Lua, onde tocas?
Que desgraças iluminas,
Que pensamentos convocas?
Será ao toque da manhã que mais fascinas?)

Desintegro o espaço ao meu redor,
De mim, feito plenitude
De medos, de temor,
Aqui, in quietude.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Hoje

De onde vêm as sobras de mim? De onde me chega o canto de augúrio do amanhecer à luz fria de Inverno? O beijo de uma guitarra que me chega lá de longe, de tempos imemoriais, condensados nesta informação digitalizada, formato mp3, atira-me contra a verdade do encontrar-me aqui, agora!. Hoje. O sufoco que me chega pelos dedos quando viro a página (não a página) atrai-me como atrai o osso rançoso o cão vadio. E quero cada página, para a negar. Nego o que leio por obrigações por mim impostas, saindo para a mentira do estar morto enquanto maquinalmente vivo. O desgosto de uma hora passada nisto: no empreendimento. Estudo, no caso. E a certeza de que me construo nesta leitura, de que me cultivo e construo o meu futuro, e que não me acalma. Porque me adoça a vida a amargura dos dias errantes em certas certezas que me dão como certas na certamente conveniente assunção da vida em comunidade. Comummente assimilada a agridoce desventura do amar a banalidade no ser mais (ainda mais). Hoje. Sempre tive em mim o encanto do saber tudo ignorar, designorando-te, verdade suprema que é ser nada, porque sempre construí(n)do sobre esta areia movediça que deixa escapar olhos, mãos, boca, cabelos desalinhados e pés alinhados para a derradeira marcha, no ir sendo (sem saber do ser) mais, MAIS, para, até ao descontentamento do ainda não chegar, me recomeçar de onde me deixei (útero materno de memórias vãs, ainda na eternidade dos ontens). Hoje.
Sentir-me
Óptimo

e, ainda assim, ter medo do escuro nos entretantos

domingo, 9 de dezembro de 2007

Sandra Marques - Parabéns!

Seguras na pena da vida e escreves,
Antes que a tinta se esvaia.
Num sorriso celebras a existência
Do hoje,
Recomeçado aos 20;
Anos que são em ti. Que são teus.

Teu é também o grande
beijinho que te deixo.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

"At Last the Secret is Out", de Carla Bruni, vídeo de Francesco Meneghini

Pudera eu seguir o roteiro de "carrascos" deste Mundo...

Gostaria de partir por esse Mundo fora à descoberta de novos quotidianos, talvez assassinos, mas diferentes. Se a diferença é uma riqueza e a morte dos dias uma constante, então que seja assassinado com novidade. Que cada carrasco seja novo e que saiba eu olhá-lo nos olhos e reconhecer a dignidade do seu papel.
No fundo, as nossas vidas são como folhas que vão sendo escritas. Escrevemos a nossa história, mas nunca ditamos a pontuação. Surgem pontos finais onde não os queríamos, vírgulas que não nos indicam como prosseguir a frase e, por vezes, as contruções frásicas tornam-se tão incompreensíveis que as julgamos absurdas. São linhas e palavras nossas, porém. Impossível esquivarmo-nos aos carrascos.
Ditou o fim deste parágrafo do meu dia o carrasco tempo, sob a forma de ponteiros do relógio. Até mais ver, até mais ler, até mais escrever!

Nevoeiro em Lisboa

O vento frio acaricia-me o pescoço mal escondido, enquanto olho o rio e as gaivotas. A cara, essa nunca a consigo esconder e dissolve-se no ar envolvente, húmido, como os olhos. A água está escura, mas não tão negra como os espíritos que esvoaçam sem rumo, ora porque nada se lhes afigura como objectivo, ora porque os seus objectivos se lhes revelam pretensões repetidamente irrealizadas. A ponte continua o seu rugido constante, mas não se atreve a dar a cara, escondida pelo nevoeiro. O "Voyeger of the Seas" traz mais gente à cidade. Mas esses ir-se-ão, com o navio, partindo para longe destes assassínios quotidianos, ao encontro de outros.

Apaziguamentos da "plebe" docente

A arena estava pronta: canetas, códigos e folhas de ponto. O burburinho dos corredores subterrâneos cessou por ordem vinda da tribuna imperial. O gládio durou o tempo de um já!/!?. Perfeita hecatombe. Chacina intelectual no escarnecer/estremecer da verificação da inferioridade dos seres que se sentam fora do estrado. Foi ontem, será amanhã e será na semana que vem. Viva o respeito! Vivam as oportunidades de avaliação justas! Viva tudo isso, mas o que eu vivo é a realidade de métodos de avaliação que não são construídos para os avaliandos. Leva-me a pensar que os objectivos não são avaliar quem estuda, pelo menos não sempre, mas manter a segregagação de classes. Sende plebe, ou escravos de uma condição irresoluta, vós, que de cives nada tendes.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Chilrear desalmado

Na melodia do rouxinol flui o som da manhã enrouquecida por murmúrios vacilantes, por suspiros de amantes, por desesperos confessados a almofadas feitas esponjas.
Hoje em dia já ninguém ouve a melodia do rouxinol...

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Gaivota que não pescou, mas mordeu o isco

A desgraça da noite: longa demais no estar abandonado a assaltos sombrios, curta demais para descansar. Deixa-me na companhia de fantasmas. Não são fantasmas que atormentem este mundo, mas o meu mundo, só, quais private poltergeists. Enquanto me vão buhando pelas costas provocam-me sobressaltos que me impedem de dormir decentemente.
Depois deparo-me com o primeiro fantasma da vida diária de todos nós. Assume formas diferentes, em momentos diferenciados, mas hoje chamei-lhe "8 da manhã, hora de te levantares e te pores a andar daqui para fora (vai!, vai e sai por essa porta ao encontro do abandono dos dias, feitos dia 28 de Novembro, dia de seres o mesmo de sempre, mais um ao encontro do teu dominus, o ser para sabe-se-lá-o-quê enquanto te perdes pelas fugas de fumo nas chaminés das fábricas de sonhos mecânicos, sempre defeituosos, quebrados), despacha-te, não comas, tens análises ao sangue para fazer (não chegasse a fome da alma vêm agora impôr-me a fome do corpo), rápido, hoje é dia de Mercado, sabes que encontrar lugar para o carro vai ser um inferno, ah!, e tens muito que estudar antes de te enfiares no comboio para apresentares o trabalho de Direito da União Europeia sobre o princípio do primado do direito comunitário (pergunto-me se esta jurisprudência não será tão absurda como a do Tribunal da Santa Fortuna), talvez consigas arranjar tempo depois para almoçar convenientemente". Tem um nome grande este fantasma, não tem? Agora imaginem enfrentá-lo. Não conseguem. Claro! Têm os vossos fantasmas para enfrentar, que também não quereria encarar. Este fantasma é meu na medida em que se me manifesta, ainda que seja omnipresente. E superamo-lo, com as coisas mais simples.
Passou uma gaivota pelo banco de praia em que estava e levou parte do peso deste fantasma para longe de mim. Comem lixo, esses bichos. Que me levem este lixo, então, para alto-mar, ou para o raio-que-o-parta, que ele não pertence aqui. Eu não como lixo, sou pessoa. E sou mais que esses fantasmas vagantes.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

lua cheia

No outro dia virei uma esquina e dei de caras com a lua. cheia. luminosa. magnificente. próxima da terra, como se ameaçasse chocar contra o planeta e destruir a vida como a conhecemos. Era Domingo. Fez-me pensar na hóstia, que já não tomo há muito tempo. Demasiado tempo.
Quis dar de caras com o corpo de Cristo. Cheio (de vida). Luminoso. Magnificente. Entre nós, destruindo a vida como a conhecemos para nos afastar da morte do caminhar sem quê, para nos mostrar a verdadeira Vida.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

"Ningém ouve, ninguém vê. Porquê?"

Da minha amiga Marta Hipólito. Uma verdadeira cineasta em formação. Um vídeo curto, com uma forte mensagem. Vale a pena ver. Valerá também a pena votar nele, já que está a concurso no Festival de Microfilmes (http://microfilmes.sapo.pt/).

Parabéns pelo vídeo Mão, como pelos outros dois!

"Boa Sorte (Good Luck)", de Vanessa da Mata e Ben Harper

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

"v" de cansaço

O medo de falhar. Sempre presente. Tudo uma mariquice: é ao que se resume. Não sou um falhado, um derrotado: sou dos que vencem! Ou aspiro a...
A vitória, in(a)spiro-a. Obrigam-me a tal. Há um quadrado sem ventilação a que chamam Mundo. Por lá há pessoas, pessoas, mais pessoas. O ar não se compõe de N2, O2 ou CO2, mas de Miséria, Sucesso e Apatia. Todos correm ao mesmo, sob pena de asfixia. Nos entretantos sucede sabe-Deus-o-quê, sucedendo sabe-Deus-quem, sucedendo-se sabemos-todos-que-o-mesmo.
Inspiro. Dilatam-se-me as narinas, depois os brônquios, ao passar deste bálsamo. E «sinto-me bem». Boa educação. Saber dizer as frases-chave: «sinto-me bem». Não me sinto. Só o bálsamo.

medo: não me falhas

«E se eu falhar?», penso. A psicologia diz-me que este pensamento causa sofrimento por antecipação e em nada me ajuda na realização dos meus projectos. É, porém, uma questão legítima. A linha entre o realismo e o derrotismo é muito ténue.
Sinto-me sob uma enorme pressão. Não se trata do peso do ar, saturado de toxinas; não se trata do peso das pessoas que se empurram contra mim, imundas, nos transportes; não se trata do peso dos livros que me acompanham nos meus passeios diários, entre bibliotecas, aulas e salas de estudo; não se trata do peso do meu irmão de 11 anos, que já deixou de ser criança de colo, ou do de 16, que é maior que eu; não se trata do peso da mochila e de todo o material que levo para as actividades escutistas; não se trata do peso dos desabafos entre amigos; não se trata do peso da Bíblia, a que recorro, pelo menos, aos Domingos. São apenas lascas na minha cruz, que é encimada pela inscrição : «Faz o teu hoje, faz-te no teu hoje». O peso da escolha, esse, é constante.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Marta Hipólito - Parabéns!

Sentimo-nos como estrelas, minha Marta. Hoje, se não te sentes estrela, brilhas. Ainda e sempre.
Pus-te na minha constelação de amigos, um dia. Tomaste o teu lugar num espaço uniformemente indefinido e inconstante, a cujas mutações assisto. Não tens órbita; não giras senão sobre ti própria. Mantenho aquele ponto fixo que tanto reluz, qual estrela-guia. É a Mão do ontem. À sua volta surgem novas Mãos. São-me dadas pelo tempo, são Mãos-dadas ao tempo de hoje. E são fascinantes. Não mudam. Acrescentam-se umas às outras. Formam complexos fascinantes, a cada nova aparição. Formam uma sub-constelação que a cada nova adição mais tem para oferecer. Não se torna mais bonita ou menos bonita: torna-se mais rica e, por isso, melhor. Dia 4 somou-se-lhe um dia, que completou 20 anos de existência. Hoje, quando me disseres «Olá!» tudo estará diferente. Mas continuará um «Olá!» cheio de amizade, que me dará uma imensa alegria.
Sorrir-me-ás. Esse sorriso, como todos os que me deste, não integrará a constelação. Será meu. Não guardo os teus sorrisos como memórias do ser, do sermos. Tenho-os, presentes em mim, de cada vez que sou. Agradeço-te por cada sorriso. De cada vez que chorares, lembra-te, será talvez porque deste demasiados sorrisos e os precisas de renovar. O «Obrigado por tudo!» estará pronto para quando voltares a iluminar o teu rosto com essa essência do ser-dando.
(«Todos se riem, banalmente. Sorrir é algo bem mais íntimo, mais genuíno.»).
Quando me abrires a porta, hoje, há só uma coisa que espero: o teu sorriso. Não há nada que o substitua. No momento em que sorris dás-te, como em nenhum outro. Porque aí transcendes-te e fazes com que o Mundo possa ver A Mão.

Encontro do Cenáculo Nacional de 2, 3 e 4 de Novembro de 2007

Dias 2, 3 e 4 de Novembro reuniram-se, em Areosa, Viana do Castelo, Caminheiros/Companheiros representantes de várias regiões/núcleos do país (eu representando o Núcleo da Barra).

O Cenáculo Nacional é um marco do Caminheirismo (http://www.cenaculo.cne-escutismo.pt/documentacao/index.html). Orgulho-me de ser escuteiro do CNE e de fazer parte deste sonho. O tema deste ciclo, AMA, esteve presente em todo o encontro: na diversão da boa companhia, no esforço do trabalho conjunto, no sabor especial da oração comunitária.

O tema deste encontro foi: Acreditar. E todos nós acreditámos, mais que antes, nas nossas capacidades, para fazer mais pelo Caminheirismo, para sermos melhores, para tornarmos o mundo um lugar mais aprazível. O vídeo, que faz parte do nosso imaginário, tenta mostrar-nos que só é preciso sonhar e acreditar no sonho, para fazer e ser. Também TU, LEITOR, podes ir mais longe. Atreve-te!

(vídeo - "Eu irei mais longe", do filme da Disney Hércules - em: http://www.youtube.com/watch?v=9wT0upBomi8)


Deram-nos este mimo:

«Obrigado Senhor,
Por nos teres trazido até aqui.
Pedimos a Tua protecção e a Tua ajuda para os próximos dias,
Para que estes sejam de uma verdadeira alegria e de um trabalho produtivo.
Ajuda a IV secção, para que esta nunca deixe de criar Homens Novos
Ajuda cada um de nós aqui presente, para que saiba sempre seguir o melhor caminho.
Ajuda-nos a acreditar cada vez mais em nós e nas nossas capacidades.»

Obrigado. Por tudo.

(Adenda: "De zero a herói", do filme da Disney Hércules

).

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Desespero

Adivinho-me nessa tua chegada triunfal.
Chegas e acenas-me, com a ponta dos dedos.
Chegas-te e passas a mão, ao de leve, nas minha costas.
Chegaste: já senti o arrepio da tua passagem.

Sentas-te comigo e fazes-me empalidecer,
Frente a todos: «Que vergonha!», penso.
Este caso é só nosso, «Nosso», segredas-me,
Em jeito de chamamento ardente, na frieza desses lábios.

Beijas-me. Tomas-me. Devoras-me.
Despes-me do tic-taquear do relógio
E levas-me para longe do tempo presente,
Para longe desta cidade, tu: selvagem!

Sentes-me inebriado de ti e regalas-te,
Enquanto neste ardor apaixonado me deixo ir,
Me deixo vir e, depois da lágrima, do grito abafado,
Expludo de mim nessa morte que é o Desespero momentâneo.

Pegas nas tuas coisas e vais-te.
Deixas a porta aberta, a Tristeza segue-se.
A Esperança alcança-me, também, mais tarde.
Mas, na escrita, continuas a amante-musa, tu: Desespero.

domingo, 21 de outubro de 2007

Fortunas puniendi

Incompleto. Perpetuamente incompleto. É desumano este vaticínio divino. Gélido, o vento da sorte. Arrepia-me. Faz-me tremer desalmadamente. Faltam-me as forças. O frio da noite que me envolve deita-me por terra.
Esse corpo que me dizem ser o meu jaz no chão imundo deste lamaçal. Jaz na prisão de uma insatisfação ditada por tiranos desígnios. Sem direito a julgamento. Sem justiça.
Ri-se e sorri, quando diz «tudo bem» a quem passa. Ri-se do ridículo da sua posição.
Jaz, rindo. Jaz, sentado à mesa para jantar. Jaz, sentado no comboio, quando vai para as aulas. Jaz, sentado a uma qualquer mesa de trabalho e estudo. Jaz, sentado à conversa no café. Melhor seria que jazesse no banco dos réus, para ser julgado, antes da pena. «Que pena», pensa, pois que as punições vão sendo ditadas pelo azar, qual Tribunal da Santa Fortuna em acção, que não admite a inocência. A idade da inocência já passou, essa sim, em que não havia inquisições fantasma culminando em amputações emocionais. Torturam-no até que não possa mais e, desfigurado, admita: «Sim, não presto!».
Sofre. Sofre antes de ser inquirido, sabendo o que o espera. Sofre, quando é torturado. Sofre com o castigo que lhe é aplicado por ser - humano.
Moribundo, nada lhe resta. Procura reconfortar-se no abraço inconsumado desta morte renascida.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Escrever é libertador, sabe bem. Muito bem. Mas sentir que não sou lido sabe mal. Muito mal.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Suspenso

As pressas de uma espera nunca efectuada,
Desilusão na opacidade de tempos passados,
Tempos idos em viagens ao futuro que nunca mais chega.
Oh! Nunca mais chega!

Reboliços de calmaria num passado não distante,
Num presente intocado,
Num futuro abissalmente perto,
Tão perto que desaparece.

Nunca chega, nunca chega esse futuro...
Quando chega tentam os pés prender-se ao passado,
Mas é impossível!
(Sim, quando se levanta o pé para dar o passo
Ele tem de pousar, não pode ficar suspenso no nada).

O passado já não o quer,
O presente não o aceita: ele pertence ao nada.
O futuro, esse, exerce sobre ele uma força irresistível, gravitacional.
Porém, um voador inseguro teme sempre uma má aterragem
(Especialmente quando contava com uma pista maior).

Não há forças que sustentem o pé suspenso indefinidamente:
Quando ele está no ar voltar atrás pode provocar o desequilíbrio.
Só resta seguir. Quer seguir?
Se não quisesse não teria iniciado o passo.
A terra firme do presente é uma ilusão
E a gravidade uma mentira:
Apesar do medo há sempre uma força que o impele a avançar
(Quem diria que pode ser mais assustadora a clareza da terra
[firme
Que o desconhecido do passo em frente,
Mesmo sem saber dos precipícios?).

Não há opção. (Lamenta-se).

(Eu posso voar...)

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Joana Hilário - Parabéns!

A distância afasta as pessoas, a certeza da pertença mantém-nas unidas.

Parabéns, a ti que me revisitas em sorrisos de ontem, a ti que és sorrisos de hoje, a ti que serás sorrisos nos amanhãs. Esses sorrisos dos amanhãs custam-nos a ver, porque tudo se enevoa, quais lágrimas que enchem o pára-brisas do carro em que seguimos. Lavam, essas lágrimas. Lavam e levam a sujidade, o que não presta. Hoje continuamos, os três. Não nos levam, quando nos lavam, mas eu levo-te comigo, como tu me levas contigo, como levamos a Sandra, que nos leva também. No carro em que seguimos, este é um dos poucos caminhos seguros que temos: a amizade.

domingo, 14 de outubro de 2007

Preciso de sofrer para me deixar ir. Não me digam que sofrer é mau: é necessário! (e inevitável...)

Cara metade

Cascais, 14 de Outubro de 2007

Cara cara metade,

Procuro-te, desesperadamente. Não te encontro. Sinto-me vazio. Faltas-me, como ar. Sufocas-me, como fumo espesso. É difícil ver, ver-te, saber-te, sentir-te, no meio desta fumaçada. Fumo desesperadamente esta angústia, não para me asfixiar, mas para poder olhar à volta. Fumo-te, sem saber de ti, e fazes-me mal. Matas-me lentamente, como um cancro. És um cancro! Estás dentro de mim, sem que de ti saiba. Vais-me consumindo. Alastras-te sem que consiga saber onde paras. Como parar-te? Destruir-te seria destruir-me.
Estás algures (?). Por tentativa e erro tento descobrir-te. Mais erros que tentativas, parece-me. A cada tentativa destruo partes de mim em que, afinal, ainda não havias tocado. Destruo os sítios em que não estas, projectando a doença que me corrói.
Tento que não me tentes. Tento-me enquanto te vou tentando encontrar para te tentar com esta ânsia minha de ter, de dar, de ser.
Hoje olho à volta e o (teu?) fumo que me envolve é tão negro que duvido que possas existir num lugar tão sombrio. Parece até fazer dissipar os dias de claridade em que me acho capaz de te achar em qualquer lado, pois que a meu lado caminha a beleza. Parece. Na verdade clarifica o facto de nem nem nesses dias por cá andares, ou de ser, também aí, incapaz de te ter.
Odeio-te por não te poder amar. Odeio-me por não amar. Tento amar para não odiar.
Queria que esta carta chegasse a ti, para de ti saber. Queria que (me) lesses. Não sei a tua morada, porém (nem dentro de mim, ou tentaria arrancar-te-me esse pedaço, esse mundo meu, esse eu).
Envio-te estas letras, por mar, afogando-as, por ar, perdendo-as no vento, por terra, desfazendo-as em pó.
Não sei que selo apostar: se esperança, se desespero. Faço o "um-dó-li-tá", jogando-me-te à sorte. Malvado fado. Tem-me mais que tu, o destino. Tem-te também. E permanece o mistério, aquele com que te vestes para sair de casa, aquele com que te envolves para adormecer. Adormeço sempre no mistério, para sentir o teu cheiro.
Será que o carteiro me fará chegar a ti? A incompetência reina por estas paragens. E não pára. Não pára este meu rodopio. Tonto, é como fico. Tonto, é o que sou!
Deixo-me-te na caixa do correio, qual caixa de mistérios e horrores que, de quando em quando, me desvenda mais uma leitura libertadora. Mas prende-me, essa leitura, abolicionista da realidade.

Teu, o meu desgosto. Teu, este desgostoso
Manuel Frederico Silva Bruschy Martins

sábado, 13 de outubro de 2007

Um livro: vidas.
Uma vida: páginas brancas, soltas, algumas rasgadas, rascunhos que se tornam manuscritos definitivos e uma caneta, cuja tinta falha.

M.

Dóis-me. Dóis-me mais do que me possa queixar. Dóis-me na medida que não foste, dando demais, dóis-me na medida em que fui, não me dando. Dóis.
Dóis-me na medida da tua ausência, feita abraço inconsumado. Dóis-me na medida da tua presença, feita sombra de um ontem, feita ponto distante de um amanhã.
Dóis-me no som desta música que me enche de ti. Dóis-me no correr desta lágrima, no esboçar deste sorriso.
Dóis-me neste nós feito distância. Dóis-me na medida do meu avançar pela estrada. Dóis-me neste contemplar de ti. Dóis-me, por fim, na memória de algo que está longe demais, noutro caminho.

(Escrevi-o a 25 de Setembro de 2007, pensando em nós, já tão eu e tu, então).

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Vagabundo

Na calçada estava descalço.
A luz do sol, o negro da roupa,
O céu limpo, a água que não vem,
Para lavar, para levar.

Mão estendida:
Para quem passa, para os carros.
(Para o céu?).
Gesto raro na sua vulgaridade.
Só, rodeado pela cidade.

Desenquadra-se e desenquadra:
Na sua quietude assiste ao passar do mundo,
A correr, a recuar, talvez,
Caminhando para todo o lado
E para sítio nenhum.
(Talvez para o hoje, que nos tira o ontem,
Que põe em causa o amanhã.)

Só, rejeitado.
O nós e o ele que não têm rumo.
Ou nós sem rumo e ele que não vemos.
(Que não queremos ver?).

Deixamos que ali continue,
Quando não temos nada que deixar;
Deixamo-lo ser deixado,
Deixamos que deixemos,
Mas, no fundo não deixamos os outros,
Nem os outros nos deixam a nós.
O mundo não deixa.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Outono

É Outono, mas sente-se ainda o ar quente ao anoitecer.
Atraco o meu barco neste chegar a casa. Este sítio é o mais bonito do mundo. Este momento é o mais bonito de sempre. É o momento de agora. Descanso-me, na ponta da caneta. A calma. Acalma, esta pausa. Contemplo as maravilhas deste mundo. O todo abraça-me. Todo eu sou. Estou com Deus. Agradeço-Lhe este momento de paz. Tenho muito que fazer. Tenho muito que ser. Muito para fazer, ainda. Solto o que já foi, o que já fui.
Espero, neste calor de princípios de Outono, que as folhas comecem a cair. Espero os dias de chuva em que me deixarei levar pela correria. Espero os dias gélidos em que o ar seco me beijará o rosto enquanto me deixarei beber da luz do sol de Inverno.

Sobre teclas

Ligo o pc. Teclo um pouco. A música ajuda-me a não ouvir outras coisas. Penso «Aproveitei bem a semana!». Penso «Vou aproveitar bem esta semana!». Leio uma série de coisas. Escrevo. Deixo-me correr sobre as teclas. Aproveito o momento.

Sobre rodas

«Tudo sobre rodas!», digo para mim. Deixo o quarto desarrumado e, a correr, visto-me. Paro na cozinha para enfiar qualquer coisa pela goela abaixo. Corro para o carro.
«Tudo sobre rodas!». Carrego no acelerador e vou rezando pelo caminho os típicos «Acelera!», «Sai-me da frente!», «Vira nesta, por favor!», «RRRR!!». Que gente, que não sabe andar sobre rodas, age como se tivesse cubos no carro!
Paro as rodas do carro. Demoro a pará-las. Os passeios e lugares de estacionamento estão cheios, parece que está toda a gente «sobre rodas».
Corro para apanhar o comboio. Oiço o apito, as portas a fecharem-se enquanto entro, mas consegui! De novo, «Tudo sobre rodas!». Tento respirar. As rodas chiam nos carris. Pego num livro. Leio. Travagem. Recomeço. Arranque.
Chegada. Corro pelas escadas. Outro lance. Outro. Maravilha! Cheguei às profundezas. Oiço o apito do comboio. Fico na plataforma, desta vez. Cheira a Metropolitano, quando entro de mãos dadas com a multidão. Corro para mudar de comboio. Outra vez. Estou «sempre sobre rodas!».
Subo de novo à luz do dia. Corro.
Entro na sala e peço desculpa ao professor pelo atraso. «Tudo sobre rodas!». Tento beber um café no bar, mas «já não dá tempo, Manel!» e queimo a língua.
Na aula falamos da "marcha do processo" e a última coisa que me apetece é marchar dali para fora. Até a matéria vai «sobre rodas!».

Hoje esteve «tudo sobre rodas!». Chego a casa e paro o carro.

sábado, 6 de outubro de 2007

Um balde e uma pá

Um balde e uma pá, à beira-mar. Enquanto construía os meus castelos descurava serem, de facto, só de areia. A inocência do olhar para as ondas a bater nas rochas e o chapinhar nas poças. O sol punha-se. Um dia. Depois mais. Um ano. Depois mais. Uma década.
Agora, mais dias, anos, e, tão perto, décadas, revisito as ondas a bater nas rochas. O sol continua a pôr-se. Renasço com esta cíclica morte. Espanto-me ao pensar «ainda sou eu!». A ver o sol deixar este canto do mundo reaprendo a esperar o seu renascer. «Ainda sou eu!». Sou mais eu. Este pôr-do-sol traz-me de volta os restantes e anuncia-me os que estão por chegar.
Uma caneta e um papel, à beira-mar. Enquanto destruo os meus castelos de areia construo em mim novos traços. A beleza do olhar o mundo e a arte de viver. O sol pôs-se. Um dia. Amanhã mais.

Maresia

Sente-se no ar. Sente-se como a indiferença que corre os passeios, como a calma que corre os bancos da Igreja, como a paixão que corre entre portas, como a dor que corre entre sorrisos, como a alegria que corre os escorregas.
Sinto-lhe a agitação, a revolta, a paixão, a dor, a alegria, a calma. Sinto. Sinto-lhe a paz. Sinto-me em paz.

Brisa do Ocidente

Não consigo estar. Tenho de ser primeiro. Saio de mim. Estou.
Estou frente ao mar. Consome-me como o fogo a crepitar na lareira, mas deixo-me afogar.
Dissolvo-me na suavidade do encontro do mar com a terra. No seu encontro comigo. No meu encontro.
Encontro o eterno guerreiro. Fumamos juntos o cachimbo da paz. Bebemos juntos o sangue das batalhas e deixamo-nos estar nesta embriaguez.
Estou ébrio. De mim. Deste cheiro a maresia. O sal da terra deve provir todo deste mar. Encontro-me com ele.
O sol que me beija a pele adocica este cheiro. Mas está baixo. (É Outono.) Sim, está baixo. Pôr-se-á. A espera não é tão grande e a rapidez do girar do mundo intensifica esta embriaguez.
«Lá vêm as nuvens!», penso. Observo-as. As nuvens produzem espectáculos maravilhosos quando se tornam densas. Hoje dissipam-se. Lentamente.
Nada perde o seu ritmo. Mas quando somos de tudo, ou não somos nada, não há ritmos, só vaguear. Gosto de ser um vagante, traz-me de volta a esta praia. Diriam que não tenho alternativa a vaguear. Não tenho, de facto. Ninguém tem. Somos como brisas. Porquê lutar contra isso? Sempre que o bom Bóreas nos empurra para baixo há novas brisas a sentir, novos cheiros que pairam no ar, novos sabores que se nos entranham na boca, na garganta e nos provocam uma gloriosa náusea. Um espasmo e foi-se. Saiu de nós esse sabor amargo. (O mundo não está ao contrário quando estamos a sul das nossas batalhas. A estrela polar é mais uma, entre tantas, e não perderá o seu lugar no espaço interestelar.)
O calmo Zéfiro vem e leva-me com ele. Arrasta-me. Sou uma brisa. Não quero escolher o meu rumo. Lutar contra o vento deixar-me-á aqui, só. Voltarei, como a maré. Deixo-me ir.
Agora sou. Ainda não consigo estar. O vento também não está, passa. Mas leva consigo os cheiros. Vou levar-me até mim, pelo mundo. Parte de mim estará sempre nesta praia. Tem o meu cheiro.
Há que deixar-me por aí. Despedaço-me e sou levado. É bom ser do mundo e não ser meu, não ser teu. Sou de todos.
Vou. Sendo.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Grito

As paredes cercam-me. O espaço aberto da cidade aperta-me contra o meu próprio corpo, isolado de todos. Eles passam. Isso: passam.
Grito: preciso de ar! Ninguém me ouve. «Abandonam-me!»
Gritei, para todos, para ninguém. Abafei o meu grito interior para poder escutar, para poder falar.
Ouvi, um dia: «Faz-te homem!». E faço-me, todos os dias.